domingo, 31 de maio de 2009

Um olhar (ou meu quase-assalto)

Quarta-feira aconteceu uma coisa mágica, graças a um olhar.

Fiquei bem nervosa com umas coisas bem bobas e fui sentar na praia pra espairecer, quase na divisa entre Santos e São Vicente. Eram umas 17h30 e tinha que fazer hora pra ir pra facul. Sentei num banquinho, comecei a organizar minhas coisas, minha agenda. Combinei com uma amiga de irmos tomar lanche juntas, ela ia me buscar. Dois rapazes saíram da ciclovia, claramente pra me assaltar.

Um passou e o outro parou do outro lado do banco. Comecei a rir. Tava calma, mas tive crise de riso. O rapaz que havia passado por mim me olhou muito bravo. Tirou satisfação "Tá olhando o que, moça?". Olhei pra ele, tive um pouco de medo, mas abri um sorriso. "Estou olhando você", respondi. Ele continuou bravo. Veio em minha direção - nesse momento vi que o outro garoto estava me cercando, fiquei assutada, mas me segurei pra disfarçar. Continuei sorrindo. "A gente veio aqui pra te roubar". "Tudo bem", respondi, olhando nos olhos dele. A expressão mudou.

- Moça, o que você está fazendo aqui?
- Tô pensando na vida. Estava muito nervosa e vim esfriar a cabeça.
- A gente veio te roubar, mas não vai mais te roubar não.
Comecei a rir denovo. Dessa vez, era medo mesmo.
- Porque você olhou pra gente. Ninguém nunca olhou pra gente.
Comecei a chorar muuuito!
- Calma, moça, a gente não vai te roubar não. A gente ia botar a arma na tua cabeça e levar teu celular, mas não vai mais não.
Comecei a chorar muito mais, claro. Quis perguntar se eles tavam armados mesmo, mas achei que podia ser abuso demais.
- Onde vocês moram? - perguntei eu. E, a partir daí, começou uma conversa longa. Os meninos ficaram uns 15 minutos comigo. Contaram seus nomes, contaram que moram no Catarina. Um deles tinha 21 anos e passou 2 anos e 4 meses na cadeia. O outro, não contou a idade, mas era bem novinho. Eu parava e recomeçava a chorar.
- Você tá vindo da escola?
- Não, tô indo pra faculdade.
- Nossa, moça, mas vc tá muito nervosa. Você não pode ir pra aula. Quer que a gente te leve em casa?
- Não, brigada, preciso ir pra faculdade...
- Então pára de chorar, se não a gente vai te roubar! - eu olhei assustada, eles deram risada.
- Por que vocês roubam?
- Porque a tentação a grande.. e o dinheiro é pouco.

Contei pra eles que trabalho com desenvolvimento de comunidades. Pedi um contato deles, que disseram que tinham medo de eu denunciá-los à polícia. Ofereci meu e-mail, eles aceitaram. Eles iam me roubar e eu via ali dois meninos tão bons. Só pensava em como podia mudar a vida deles. E tô com isso na cebça até agora..

Hoje vi o vídeo de uma campanha chamada Girl Effect www.girleffect.org . Tem só 2 minutinhos e mostra o quanto mudar a vida de uma menina pode mudar o futuro de toda a humanidade. Lembrei deles denovo. E vou lembrar por muito tempo ainda... Se só um olhar muda uma vida, imagina o poder que temos quando nos propomos a fazer mais.

Mariana Felippe

segunda-feira, 13 de abril de 2009